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A História do Futuro


Este artigo, publicado em CartaCapital nº 281, foi baseado em entrevistas com Gérson Lodi-Ribeiro e Roberto Causo, aqui transcritas na íntegra.

 

Por volta de 29 a.C., o historiador romano Tito Lívio, ao descrever os primórdios da expansão romana em sua História de Roma, não resistiu e por um momento deixou de lado o apego aos fatos para divagar: o que teria acontecido se, trezentos anos antes, Alexandre, o Grande, tivesse se voltado para o Ocidente e atacado a República Romana, ainda restrita às terras do Lácio?

Patrioticamente, Lívio afirmou que a história não mudaria muito: as embrionárias legiões teriam repelido as poderosas falanges macedônicas. Recusou-se a admitir que o Império Romano pudesse ter sido decapitado no berço.

Foi o primeiro ensaio do que hoje se chama “história contrafactual” ou “virtual”, um gênero que surgiu como uma ocasional digressão especulativa de historiadores. Arnold Toynbee, por exemplo, pontuou suas obras mais importantes, como Some problems of Greek history e Um Estudo da História, com breves especulações sobre o que poderia ter acontecido se Alexandre não tivesse morrido jovem em Babilônia ou se os árabes tivessem vencido Charles Martel em Tours.

Mais recentemente, alguns historiadores, principalmente britânicos e norte-americanos, têm tentado construir cenários detalhados e cuidadosamente justificados do que teria acontecido se, digamos, os EUA não houvessem proclamado a independência (J.C.D. Clark, em Virtual History, coletânea organizada pelo historiador econômico Niall Ferguson, Basic Books, R$ 73,33 na Livraria Cultura) ou se Jesus tivesse sido perdoado por Pilatos (por Carlos Eire em E se...?  coletânea organizada pelo historiador militar Robert Cowley, Campus, R$ 53,90). A revista Superinteressante também brinda regularmente seus leitores com ensaios desse tipo.

Há quem recorra a modelos econométricos e estatísticas minuciosas. O economista norte-americano R. W. Fogel ganhou o Nobel em 1993 por fundar a chamada cliometria, no início dos 60, com um modelo do desenvolvimento dos EUA sem ferrovias que teria demonstrado que elas não foram vitais à industrialização. Outro de seus estudos, de 1974, argumentou que a escravidão era economicamente competitiva: foi inviabilizada por razões puramente políticas.

Para os defensores dessa abordagem, construir tais cenários é uma necessidade lógica de toda alegação de causalidade em história. Quando afirmamos que uma política prejudicou o País, fazemos um raciocínio contrafactual implícito: fosse outra, estaríamos melhor hoje. Explicitá-lo é preciso para validar o argumento.

Outros historiadores e filósofos, porém, recusam valor científico a tais cenários hipotéticos: nada nos revelam sobre a realidade, mas apenas sobre preconceitos e preferências ideológicas de seus autores. Não podem ser testados e apóiam-se sobre estatísticas precárias e teorias que, já duvidosas no mundo atual, valem ainda menos ao serem aplicadas a outras realidades. Na prática, o economista ou historiador sempre faz suposições para chegar àquilo que pressupôs que aconteceria, o que reduz essa modelagem a mera retórica.

Mas tenha ou não valor histórico, esse jogo especulativo pode ser ainda mais intrigante quando abandona a pretensão científica para se tornar pura aventura literária, principalmente se o leitor tem o pouco de conhecimento histórico que se exige para melhor saborear todas as sutilezas e ironias dessas alternativas.

A primeira experiência foi Napoléon et la conquête du monde, 1812-1823: histoire de la monarchie universelle, escrito em 1836 pelo (obviamente) francês Louis Geoffroy. O narrador é um historiador que explica como Napoleão destroçou o exército russo antes do inverno e prosseguiu suas conquistas até consolidar um império mundial. De passagem, menciona um romance especulativo no qual o imperador teria sofrido uma absurda derrota em uma cidadezinha belga chamada Waterloo.

O modelo teve seguidores nas décadas seguintes, principalmente na França, como o filósofo Charles Renouvier, que em 1876 esboçou em Uchronie um mundo no qual, em 165 d.C., o imperador-filósofo Marco Aurélio adotou como sucessor o filósofo Avídio Cássio, em vez de seu desastroso filho Cômodo. A decadência de Roma e a Idade Média foram evitadas, as artes e as ciências avançaram muito mais rapidamente e o cristianismo jamais se tornou a religião hegemônica. O título, análogo a Utopia, passou a ser usado em francês para denominar tais obras, também conhecidas como “histórias alternativas (HA)” ou “aloistórias”.

Uma variação foi proposta em 1889, por Mark Twain, no romance Um Ianque na Corte do Rei Artur. Um dinâmico gerente de fábrica do Connecticut, lançado na semilendária Britânia do século VI, tenta promover a revolução industrial mais de mil anos antes do tempo e é derrotado pela Igreja e pela superstição.

Exemplos anteriores pressupunham a contingência da história: pequenos incidentes ou decisões individuais poderiam mudar o mundo a ponto de torná-lo irreconhecível, como no “efeito borboleta” da moderna Teoria do Caos, antecipada em 1658 pelo filósofo e matemático Blaise Pascal quando garantiu que “se o nariz de Cleópatra fosse mais curto, toda a face da Terra teria mudado.” 

Twain, pelo contrário, poderia ter sido aprovado por defensores de teses deterministas como as de Hegel, Braudel e dos marxistas, para os quais, no longo prazo, a ação do indivíduo é irrelevante ante os movimentos e estruturas sociais.

A consolidação da HA como gênero veio em 1939 com o autor de ficção científica (FC) L. Sprague de Camp, no romance A Luz e as Trevas. Um arqueólogo transportado para o mesmo século VI, mas na Roma de Justiniano, recorre a seus conhecimentos históricos para inserir-se na época, introduzir cautelosamente invenções da Renascença e fugir ao triste destino do herói de Twain. Realiza o sonho de Renouvier: evita a Idade das Trevas e muda a história.

Autores posteriores, influenciados pela FC, recorreram com certa freqüência, à “máquina do tempo” imaginada por H. G. Wells e ao conceito, originado de certa interpretação da mecânica quântica, de “universos paralelos”, nos quais a história foi diferente.

Isto gerou desde HAs clássicas decoradas ao gosto do fã de FC a contos sobre paradoxos e dilemas éticos que resultam de alterar o passado (e às vezes inviabilizar a própria existência do protagonista, como no caso clássico do viajante no tempo que mata o próprio avô) que pertencem mais propriamente à FC, pois não aprofundam uma realidade “alternativa”.

Surgiram o tema do “círculo vicioso” temporal (como no filme O Feitiço do Tempo) e da ficção alternativa, que explora uma variação na carreira de um já conhecido personagem de romance, filme ou gibi, como na minissérie Red Son, ainda não publicada no Brasil, na qual o bebê Superman cai na URSS e é criado por Stálin. Mas continuaram a existir HAs tradicionais, como no assustador romance Pátria Amada de Robert Harris (filmada como A Nação do Medo), que se passa em um mundo no qual Hitler foi vitorioso.

Um panorama amplo pode ser encontrado no site (em inglês) http://www.uchronia.net, mas o estudo mais detalhado é L’Histoire Revisitée, de Eric Henriet (Encrage, 2004 – R$ 223 pela Livraria Francesa).  Para o autor, vale notar, uma das mais importantes escolas de HA, depois da anglófona e da francesa, é a do Brasil, juntamente com as da Itália e do Japão.

No Brasil, foi precursor o romance A Casca da Serpente de José J. Veiga de 1989, no qual Antônio Conselheiro sobrevive ao massacre de Canudos, transforma-se de fanático religioso em anarquista e funda uma nova comunidade que resiste aos militares brasileiros até meados do século XX.

O equivalente nativo de Sprague de Camp, porém, é o escritor Gérson Lodi-Ribeiro que escreveu a noveleta A Ética da Traição em agosto de 1990 para a Isaac Asimov Magazine, mas só a viu publicada na 25ª e última edição, em 1993.

O Paraguai vencera a decisiva batalha de Riachuelo; o nacionalismo guarani de Solano López conquistou o Uruguai e grande parte do Brasil e Argentina, construiu uma superpotência e promoveu uma revolução industrial humanizada que mudou a face da Terra. Um físico negro, que trabalha para os militares de um Brasil reduzido mas rico e cientificamente avançado, detecta uma “história paralela” na qual seu País tem metade da América do Sul, mas é dependente do capital estrangeiro, pobre e injusto. Seus superiores, fascinados pela possibilidade de vencer retroativamente a guerra, tentam mudar sua história – ou seja, concretizar aquela que conhecemos. Mas o cientista, certo de que isso traria um mundo pior para a maior parte da humanidade e, especialmente, para sua raça, os trai.

Comparemos essa história com Tudo Menos a Honra, do autor norte-americano George Alec Effinger, publicada em novembro de 1990 na mesma revista. Nesta (que Lodi-Ribeiro garante só ter lido depois de escrever a sua), a abolição da escravidão nos EUA havia sido gradual e a situação dos negros é miserável.

Mas um físico negro que imigrara para a Europa usa a avançada ciência alemã para mudar a história. Prolonga a guerra da Secessão, o que traz um abolicionismo mais radical e uma vida algo melhor para os negros do século XX. Ao voltar, descobre, porém, uma conseqüência inesperada da sua aventura: os EUA, precocemente consolidados como potência militar, haviam intervido na I Guerra Mundial. Em vez de retornar a uma Alemanha progressista, o cientista tem um triste fim nas garras do III Reich.

Entre autores de HA de potências vitoriosas – da Roma de Lívio aos EUA de Effinger – tentativas de alterar a história tendem a resultar em um mundo pior. Ou são frustradas, se não pela lógica da história, por uma “polícia do tempo” como em Guardiães do Tempo de Poul Anderson. Por quê?  Diz Lodi-Ribeiro:

         Porque já vivem no melhor dos mundos possíveis, ao menos no presente.  O mundo deles poderia tornar-se melhor ainda?  Lógico que sim!  Mas não hoje. No futuro, quem sabe?  Do futuro, porém, a FC convencional dá conta. De forma análoga, autores não-anglófonos possuem, de maneira geral, certa tendência a criar linhas alternativas otimistas... porque sabemos que não vivemos em absoluto no melhor dos mundos. (leia a entrevista completa em http://rpg_ficcao.sites.uol.com.br/Historia/LodiRibeiro.htm).

Há exceções, mas autores franceses e brasileiros parecem mais propensos a criar histórias alternativas que gostariam de viver. Além do ciclo paraguaio, Lodi-Ribeiro criou aventuras em um mundo no qual os holandeses de Pernambuco se aliaram ao Quilombo dos Palmares, resultando em um Brasil dividido em três nações bem diferentes, mas também mais igualitárias e desenvolvidas. Este tema foi desenvolvido principalmente nos livros Outras Histórias... e O Vampiro de Nova Holanda, publicados pela editora portuguesa Caminho. Lodi-Ribeiro também escreveu Ensaios de História Alternativa, livro eletrônico gratuito disponível em http://www.scarium.com.br/e-books/ebook.html.

Também contribuíram para o gênero os historiadores Roberval Barcellos e Carla Cristina Pereira, entre outros autores brasileiros das antologias Outras Copas, Outros Mundos (Ano-Luz, 1998) e Phantastica Brasiliana (idem, 2000). Barcellos conta a epopéia de um Brasil que resiste ao golpe de 1964: depois de nove anos de guerra civil, uma democracia social liderada por Brizola e Lamarca (ajudados por Guevara) derrota as tentativas dos EUA e da URSS de partilhar o País.

Pereira foi mais fundo: supôs o conquistador Cortéz executado em seu primeiro desembarque no continente, depois de derrotado pelos maias em um jogo de tlachtli. Astecas e incas resistem aos espanhóis, aliam-se aos portugueses e criam um mundo em que modernas civilizações indígenas rivalizam com a da Europa.

A primeira dessas antologias também trouxe um conto despretensioso e satírico que acabou por fazer carreira: Eu matei Paolo Rossi, de Octávio Aragão, na qual um torcedor inconformado com a derrota do Brasil para a Itália em 1982 resolve alterar a história e arma uma baderna cósmica reprimida por uma “polícia do tempo” chamada Intempol.

Ao contrário dos simpáticos e assépticos guardiões de Poul Anderson (que, entretanto, faziam desaparecer uma civilização inteira se lhes contrariasse os planos), a Intempol era visivelmente truculenta, brutal e corrupta, mais delegacia da periferia paulistana ou carioca do que QG da CIA. A idéia interessou autores como Lodi-Ribeiro, Carlos Orsi Martinho, Osmarco Valladão, Paulo Elache e Fábio Fernandes, entre outros, que na coletânea Intempol (Ano-Luz, 2001) e no site http://www.intempol.com.br, desenvolvem o tema à sua maneira.

O projeto tem o sabor de um cadavre exquis (cadáver delicioso). Como nesse jogo artístico coletivo inventado pelos surrealistas, no qual cada um acrescenta seus versos ou desenhos a uma obra sem levar em conta o que o outro fez, cada contista tem idéias diferentes sobre o que essa polícia realmente é, quem a controla e com quais objetivos – e vê suas ações sob um prisma diferente. O leitor é confrontado com tantas teorias quanto as há sobre o mundo real – o que torna o conjunto tão singularmente real quanto surreal, além de desmistificar com eficácia as convenções das formas mais estereotipadas da FC e suas visões ingênuas da ciência, da história e da sociedade.